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sem que eu me apercebesse que lá estavas pensei que tivesses ido embora quando o teu cheiro mudou, eu lembro-me que o teu cheiro mudou, já não era o cheiro do meu amor, era o cheiro de outro homem, e eu não queria que esse homem fizesse amor comigo ou fosse comigo ao cinema, eu precisava de tomar banho para retirar esse homem de mim, sabes, eu odeio ter o cheiro de desconhecidos no corpo. talvez o meu cheiro também tenha mudado, mas tu não te importaste. eu pensei que o meu amor tinha morrido com o teu cheiro, e o meu quarto foi perdendo espaço, os móveis cada vez mais próximos uns dos outros, a cama, mal dando para mim, tu, a prender-me os movimentos, mas ainda cabendo, cabendo para ti e para todos os outros. eu amei-te quando te queria amar, e quando não queria o teu cheiro mudou, as tuas mãos pareciam outras, os gritos, durante a noite, porque tu, porque eu, os amantes, porque eu, porque tu, porque o amor, a dizer-me que eu posso querer. agora que o meu quarto tem espaço, não cabe lá mais ninguém, por muito que eu queira, sabes que eu sempre amei porque quis, e eu ouço-te respirar, perto do peito, sem nunca te conseguir ver. às vezes acendo um cigarro e quase vejo os contornos do teu rosto. sempre que te tento abraçar, o fumo desvanece, e eu volto a encostar-me à parede, a gritar o teu nome tão furiosamente, que toda a gente, se visse, diria que algures na minha cabeça, eu estou doente. |